domingo, dezembro 17, 2006

Que se vayan todos!


Era o que urrava a Argentina na Plaza de Mayo em 19 e 20 de dezembro de 2001, 5 anos atrás, horas antes da renúncia de Fernando de la Rúa. O cacerolazo continuaria ainda por mêses, com saques, depredações e mortos. A crise econômica e a instabilidade política também. Que se vayan todos era um grito unânime à toda classe política e ao Governo.
Em 1° de dezembro de 2001, para tentar deter uma corrida em massa da população que tencionava sacar seus depósitos em pesos para dolarizá-los ou ainda seus depósitos em dólares (o que era permitido), Domingo Cavallo, numa volta atrapalhada ao ministério da Economia(num episódio toma que o filho é teu!), decretou o "corralito", limitando os saques em pesos e impedindo os saques em dólares. Era o fim. Era um atestado de incompetência administrativa e de irresponsabilidade da dupla Menem- Cavallo, 10 anos no comando de uma política econômica que misturava a aplicação populista de um neo-liberalismo cego com clientelismo político e irresponsabilidade fiscal. O ato foi a gota dágua para a população.
A medida era inevitável. Uma fuga "escusa" de doláres ocorria há meses no país. Avisados com antecedência e sabedores da quebra do setor bancário argentino, as grandes empresas e os grandes correntistas já haviam na sua maioria retirado seus pesos e doláres do sistema. O currency board adotado anos antes pela Argentina para impressionar o mercado financeiro internacional era um sistema ultra-radical de câmbio fixo que ancorova o peso ao dólar com lastro fixado por lei nas reservas internas. (Pra se ter uma idéia apenas a Bulgária utiliza-o hoje em dia). As crises financeiras do México, da Ásia, Rússia e mais ainda a do Brasil, durante nos anos 90 afetaram severamente o fluxo de capitais e a competitividade cambial das exportações, minando as reservas. O currency board impedia ao mesmo tempo o aumento da base monetária via impressão de moeda e a criação de novos impostos. Com as despesas públicas (previdência e estados principalmente) e o défcit em conta corrente em descontrole, o jeito foi criar títulos da dívida e precatórios numa atitude de rolagem que só a fez crescer furiosamente.
Como boa parte da América Latina, seja em maior ou menor grau, a Argentina resolveu o problema da Hiperinflação da década de 80 com medidas preconizadas pelo Consenso de Washington (as diretrizes ideológicas do FMI e Banco Mundial, para a América Latina nos 90) à saber: privatizações, desregulamentação e financiamento do crescimento com capital externo.
Entretanto, também como em boa parte da América Latina, a equação não resolveu o problema do desemprego, da dívida pública e do crescimento. Assim como no Brasil, o montante angariado pelas privatizações não foi suficiente para estabilizar, neutralizar ou ainda conter a dívida pública, boa parte dela em dólar no caso argentino. O fator juros altos, utilizado sempre para atrair capital externo e agora turbinado pela crescente emissão de novos títulos foram obviamente, o multiplicador vil desta equação. O capital gerado pelas privatizações, esvaiu-se pelo ralo, em acordos, favores políticos e clientelismos junto as províncias (estados) e municípios e outras particularidades institucionais e morais latino-americanas.
O resultado foi que em dezembro de 2001, antes mesmo que o Governo conseguisse pagar os serviços da dívida com o que restava de reservas internas e de dólares no mercado, o país quebrou.
De junho de 2001 para agosto 2002 o PIB Argentino caiu 16%! O PIB per capita que era de US$ 7.170 passou para a casa de US$ 4.000. As cantinas das escolas secundárias eram mantidas abertas diariamente pois as crianças desmaiavam de fome e 20% delas não conseguiam ter uma alimentação diária básica. A água substituiu o desinfetante e o talco substituia o desodorante no quesito higiene pessoal. De dezembro de 2001 (época do corralito) à janeiro de 2002 houve um acréscimo de 20 mil pessoas mortas em decorrência de problemas cardíacos nos hospitais.
Dos 35 milhões de argentinos em 2002 , 19 milhões encontravam-se abaixo da linha de pobreza, (com renda mensal inferior a R$600). Destes, 60% vinham da classe média nos últimos 3 ou 4 anos."São pobres que mantêm certas características, sobretudo culturais e educativas, que não são próprias dos pobres. É gente que vive objetivamente em situação de pobreza, mas que tem sistemas de vida, expectativas e visões que não são próprias do universo da pobreza", dizia uma socióloga da Universidade de Buenos Aires.
No período de 2003 à 2006 o PIB argentino recuperou-se de maneira rápida considerada a gravidade.
Entretanto, as consequências desta crise conseguirão afetar por inteiro o futuro de uma ou mais gerações.
Foi um preço alto demais à pagar.

4 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Quem vê os argentinos hoje se surpreende com a força de vontade que demonstram para sair dessa crise. Mais uma vez, bel texto! Didático, informativo e interessante. Sou tiete! rs* Beijos :)

10:44 AM  
Anonymous Anônimo said...

João,belo texto, bem escrito (como sempre)...

Só complementando, mesmo com o crescimento vigoroso alcançado pela argentina, ela ainda não conseguiu ultrapassar o pib de antes da crise.
Bem como diria o velho juquinha, ARGENTINA PAIS IRMÃO do Brasil, Irmão sim, porque amigo agente escolhe!!!!
Beijo

7:13 PM  
Blogger Unknown said...

A Argentina é um país fantástico, principalmente Buenos Aires. Eles só tem um problema: os argentinos.

Abs

7:29 PM  
Anonymous Anônimo said...

João,

Aqui é o teu amigo Daniel Anderson. Envie um e-mail no d.j.anderson@uol.com.br

Gostaria de convidá-lo para uma festa.

Bóra?

Abração,

Gringo

7:33 PM  

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